Libertas Quae Sera Tamen


Hoje eu te ouvi sentada no chão do banheiro

E o choro alto assustaria os vizinhos
Se não fosse o abafamento causado pelo chuveiro
Não havia ninguém que não estivesse mergulhado na própria infelicidade
Que pudesse se atentar que na casa ao lado todos os dias acontecia a mesma barbaridade

Desde que o mundo é mundo

E desde que me entendo por gente
Me pergunto porque nos enterram em poços bem fundos
Reduzindo nossa individualidade e vontades a algo inexistente
E quando a mídia mostra mais uma vítima, sempre tem um ou outro
Dizendo que “a mulher obediente preserva a paz e os dentes”
Como se para existir fosse necessária anulação, malabarismos e sufoco

Hoje eu te ouvi

Mas de novo não consegui impedir
E de tanto que demorou
Quando a polícia chegou
Mais um corpo gelado
Foi retirado e levado
Para o local onde comprovariam por escrito
O nada secreto laudo
Que seus gritos tão sem forças e doídos já haviam constatado:
Corpo — de mulher — sem vida, abusado

Um dia, nossos corpos serão livres
Assim como nossas almas se libertam
Quando eles queimam tais corpos
Acreditando ser neles onde as magias se manifestam

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