Pra Cantar o Sol


As vezes, recomeçar é muito difícil. Em alguns casos, nos convence de que é impossível.

Minha casa três é representada por um signo fixo, de terra e isso faz com que eu seja um tanto quanto tradicional, resistindo por um tempo às mudanças. Eu sei, isso espanta um pouco quando se tem o Sol em um signo de Ar. Mas se eu for explicar cada signo do meu mapa e quais as características que me ligam à eles, me fazendo ser exatamente como sou, ficaria aqui por horas e esse texto seria sobre Astrologia. Mas eu quero mesmo falar das mudanças.

Prestes a fazer trinta anos e em meio ao meu inferno astral, venho refletindo dia após dia sobre tudo que me ocorreu nesses anos todos de vida e o quanto de aprendizado isso me trouxe, clarificando cada vez mais a minha existência.

Nunca fui uma pessoa que aceitava bem quando as coisas tinham que mudar. Com quatro anos, no meu primeiro dia na escolinha, eu chorei por semanas quando percebi que passaria a manhã toda distante da minha mãe. A medida que o tempo passava, isso também passava. Mas em algumas vezes, aquele sofrimento voltava com força. Como se fosse o primeiro dia em que eu tinha que lidar com o desconhecido. Um dia, minha mãe teve que ficar comigo durante um tempo e, depois, quando o tempo passou e eu me ocupei com outra coisa, notei que ela não estava mais lá. Isso me deixou chateada, mas só percebi quando já quase estava indo para casa e a dor não me doía como se fosse me atravessar fisicamente. Eu era tão pequena e já tinha que passar pela dor de encarar o desconhecido: a tão famosa mudança.

Mais tarde, com dezesseis anos, precisei me mudar da cidade onde eu nasci e cresci, para me mudar para cidade grande. Se despedir da tia favorita, dos amigos e dos lugares que conhecia de cór, é com certeza, algo pelo qual nenhum adolescente que adora sua vida, quer passar. Chorei copiosamente por três meses. Depois, foi passando. Conheci outros lugares, outras pessoas – apesar de por muito ter podido fechar os olhos e estar lá novamente, porque eu era feliz. E ser feliz, me traz muito pra dualidade da vida. Principalmente sobre estar em felicidade plena com o presente, só por saber que não durará para sempre.

A tristeza também faz parte do processo e nos encaminha para um desconhecido, já conhecido. Penso eu, que resistir às mudanças naturais da vida, é ficar com medo de ser, amanhã, um pouco mais triste ou um pouco menos feliz do que somos hoje. Perceber isso, faz com que eu veja que de todas as coisas que passaram pela minha vida, todas vieram para ensinar. Nunca acreditei ter sido derrubada só porque precisei ficar um tempo no chão. Deitar é descansar. É esperar o folêgo voltar para que então se possa caminhar. Com a coluna não tão firme, mas com os pés cravados na terra.

Me lembrei da tristeza dia desses e me peguei sorrindo, voltando a algum momento que não o agora. E percebo que, em toda alegria há tristeza e vice-versa. A vida é uma mudança. Uma muda dança, como citou um querido amigo meu. Muda & dança. Me ver feliz e visitar um lugar no passado onde eu já não fui, me faz acreditar muito que a vida é uma arte, um belo espetáculo de dança, onde quem perde o movimento, deixa de fazer parte dessa andança. É bom se abraçar e, mais do que estar feliz, perceber que realmente se merece essa felicidade.

Para toda tristeza que veio e virá, que o lema seja sempre ser feliz ao se abraçar e ver o quanto se tem de cicatriz. Assim como a tristeza, a felicidade anda de mãos dadas com a mudança. Torço para que eu e todos os seres possamos seguir sem lutar contra ela e aprender com o que venha ensinar. Para que finalmente possamos enxergar, que vizinha do desconhecido, mora a esperança.

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