Crescer e Partir
Adentrar as mais profundas partes da floresta de mata fechada que existe em mim, me fez perceber quem sou. A criança que me conduzia pelas mãos, era eu mesma; a que veio antes para descobrir as coisas que estão permeando o mundo e me contar às quais passou, até mesmo aquelas que não tolerou. Crescer é sempre muito difícil, porque você percebe que no meio do caminho, vão ficando as peles que inevitavelmente não mais habita, mas que já habitou.
Faz parte a gente culpar o outro e dizer que a influência dele nos fazia não ser quem realmente somos; mas eu, hoje posso ver que por muito tempo, deixei me levar por quem eu era por minha própria responsabilidade e pelo apego que eu tinha com quem eu já não sou. É muito esquisito se olhar e entender que a bagagem que se tem, é aquela que se construiu, mas que talvez não mais se precise carregar para o novo lar que agora, você vê um outro jeito de decorar.
Foi preciso força e muito, muito tempo dentro de mim até me sentir confortável com a nova pessoa que se apresenta como eu na idade adulta. Meus gostos mudaram e com certeza, minha maneira de ver as coisas e o mundo também se modificaram. A parte assustadora, que eu sabia que viria, seriam as amizades que pelo caminho se despediriam. Não pelo fato de se odiarem, mas pelo entendimento pessoal de que se você cresceu, é impossível que o outro lado tenha estagnado. Então é melhor vocês aceitarem. Algumas pessoas não cabem mais nessa nova versão de nós mesmos. Inclusive, talvez nem a sua antiga versão consiga conversar com sua nova aparição, e não tem jeitinho brasileiro que resolva. Nem choro, nem vela, muito menos oração. Isso é questão de conexão.
Partir fica menos pesado quando o fardo do passado é descarrilhado. Quando a gente finalmente aceita se despedir do que fomos – e de tudo aquilo que fazia parte do nosso outro eu – e encaramos de frente o desafio sublime de reconhecer quem se é no presente. Que também não é permanente; nunca será, pois nada é e no fundo, a gente enxuga os olhos e se cala porque consente. É assim que aprendemos a seguir: um pouco (ou muito) sentidos, mas ansiosos pelas aventuras que virão pela frente. Sei que vou crescer e partir milhares de vezes nessa mesma vida, pois viver é ver com gentileza a necessidade da morte de todas as vidas que vivi e de todas as eus que com ou sem resistência, acolhi. A constante da existência é a mudança e eu não posso me opor à ela, nem mesmo num cenário onde meus olhos parecem enxergar apenas a desesperança.
Fazer as pazes com quem sou, é deixar o caminho livre para que o fluxo das coisas possa fluir com louvor. É perceber que por mais difícil que pareça, soltar a ancora que me prende a todo e qualquer passado, é deixar o rio passar, arando a terra para que ela enfim, floresça. Crescer e partir, sempre exigirá que temos que nos despedir. E se despedir, pode ser a melhor solução para que você possa encontrar não os lugares onde você possa caber, mas que possa voar livre por aí e ser bem recebido em qualquer lugar que respeite e ame o grande desafio que você aceitou: o de ser você.
Autenticidade é um pacto de lealdade. Só amando muito todas as nossas versões para aceita-las. E só as aceitando é que se pode sentir o gosto docinho da reciprocidade do outro, no estado mais puro da verdade. E é assim, que mesmo na dureza da vida, se alcança a plenitude da felicidade.
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